As recentes manifestações de rua e
a experiência da Comuna de Paris
SILVIO COSTA*
O título deste artigo, a princípio, poderá se apresentar como desfocado, esdrúxulo, ou qualquer outro adjetivo semelhante. Mas, para os leitores que costumeiramente ultrapassam a leitura dos títulos e dos primeiros parágrafos – o que é muito corriqueiro “nestes tempos de proliferação da internet”, de analfabetismo virtual -, irão compreendendo e possivelmente, concordando que, para o conhecimento de acontecimentos de nosso cotidiano, para uma análise mais aprofundada sobre a realidade se faz necessário o recurso à História, a experiência acumulada, aos fatos que, aparentemente, “estão perdidos”. Esse é o propósito desse artigo.
As manifestações de rua, a partir de junho de 2013, ressurgem em consequência dos resultados das últimas eleições – legislativas e executivas – e assumem caráter de bipolarização; colocando de um lado, as forças coligadas em torno do governo federal e de outro, as oposicionistas, ambas empunhando bandeiras de nítido caráter político, mas são apresentadas falaciosamente como (a)políticas, meros “frutos da insatisfação popular”, “espontâneas”. Inclusive procuram enganar os “crentes” – aqueles que acreditam e defendem “a primeira conversa e versão dos fatos” – ao atribui-las “as redes sociais”. Esquecendo-se de que “nem as águas que caem, sob a forma de chuvas”, são espontâneas! Muito menos em momentos de disputas político-partidárias acirradas como as que se manifestam nos dias atuais. Nesse sentido, o que é apresentado como “novo”, como “novidade”, como o “gigante acordou”, é apenas a manifestação atual e localizada da secular disputa entre as forças da conservação, da reação, que buscam manter seus privilégios e circunstancialmente, buscam se apresentarem como sendo de “mudanças”, e as forças que procuram conquistar e construir uma sociedade mais igualitária, fraterna e solidária. Este é o sentido e o conteúdo histórico das ações humanas. É a explicitação da disputa entre interesses antagônicos: a luta de classes!
Os Séculos anteriores não deixam dúvidas sobre isso! Principalmente os dois últimos, que por um lado, foram de consolidação da sociedade industrial e do poder burguês-capitalista e por outro, de tentativas de construção de outro tipo de organização econômico-social e política, a sociedade socialista.
Porém, já na primeira década deste Século, é demonstrado, de forma cada vez mais evidente, as contradições e o estertor do projeto civilizatório burguês. A última e atual crise econômico-financeira eclodiu no centro do império a partir de 2008, se estendendo em um primeiro momento, aos denominados países de “primeiro mundo”, atingindo diferentes dimensões e levando ao desemprego e a miséria milhões de trabalhadores assalariados, principalmente os EUA e na Europa, acirrando as disputas pelo controle do poder político, onde os diferentes segmentos econômico-político-sociais buscam transferir o ônus da crise para “outros ombros”.
Em um segundo momento, sob diferentes formas e momentos, a crise passa a atingir diversos países na órbita do denominado “segundo” e “terceiro” mundos, seja através das revoltas que se alastram pelo mundo árabe (Tunísia, Egito, Argélia, Líbia, Bahrein, etc.), golpeando mortalmente mais uma era das ditaduras, que havia atingido de forma dramática, a diferentes países e continentes a partir dos anos de 1960/70.
Porém, acredito que um melhor entendimento do que ocorre nos dois últimos anos em nosso país, não deve ser buscado apenas em análises conjunturais e descontextualizadas. Os diversos e diferentes acontecimentos econômicos, sociais e políticos polarizados em torno da aglutinação em duas forças políticas, responsáveis pelas duas últimas manifestações, são integrantes (e vítimas?) desse processo de crise econômica, “seremos, neste momento, uma das bolas da vez”?
No caso o Brasil atual, diferenciando-se do século passado, entre as diversas bandeiras que tremulam entre as forças político-partidárias comprometidas com as mudanças, não conseguimos ler ou vislumbrar a defesa do socialismo, o que foi muito comum em outras manifestações históricas recentes. Inclusive, observamos que o que assume destaque é a defesa da democracia – representativa –, o respeito ao jogo e as regras democrático-constitucionais. Em outro campo político-partidário, escudados no combate a corrupção, chegam a defender a ruptura do jogo e das regras democrático-legais, estabelecidas na Constituição, a proporem “rasgar a Constituição” através de uma “intervenção militar institucional”. Isso, todos aqueles que possuem um mínimo de “sã consciência”, sabem que é a defesa (não explicita, mascarada) do golpe e da ditadura militar. Procurando viabilizar esses objetivos escusos, agressivamente tentam espalhar o medo, utilizam palavrões e xingamentos, tentam eliminar o debate e manipulam as informações.
Essa situação conjuntural significa que o ideal de uma sociedade socialista está superado? A devemos “jogar na lata de lixo da História”?
Na busca de resposta a estas perguntas, entendemos ser necessário estudar e conhecer com maior profundidade a História, as experiências que marcam o processo de emancipação dos povos oprimidos.
Neste ano, recuperando um acontecimento iniciado em 18 de março que se estende a 28 de maio de 1871, portanto há 144 anos, ocorreu a primeira tentativa do proletariado de Paris, que segundo Marx, tentou tomar o céu de assalto. Conhecê-la contribuirá não só para nos tornarmos “ilustrados”, mas fundamentalmente para conhecer comparativamente um pouco mais a atualidade e a partir desse conhecimento, definir melhor os rumos a seguir e qual democracia queremos construir.
Analisando as últimas décadas da História mundial é possível perceber com nitidez, as tentativas de consolidação do ideário neoliberal, nos levando a acreditar na falácia do "fim da História" e aceitar a barbárie como sinônimo de democracia. Esses mistificadores, afirmam arrogantemente de que não há alternativas ao consumismo desenfreado, ao "reino" da mercadoria, tutelados pelas velhas elites. Mas, em que pesem seu poderio e suas pressões, não encontram campo fértil em importantes parcelas da população que não se submetem às tentativas de imposição da barbárie.
As experiências das revoluções populares e proletárias, qualquer que seja a avaliação sobre seus resultados, seus erros e acertos, nos permitem afirmar que, do ponto de vista da busca de construção de uma sociedade igualitária e fraterna, são ainda, revoluções incompletas e apresentam uma série de problema e debilidades. Mas, mesmo assim, continuam indicando um futuro para a Humanidade. Isso porque as revoluções não são provocadas por fatores fortuitos, pela vontade subjetiva de alguns líderes, independentes do processo histórico real. As revoluções não são fatos produzidos artificialmente, como resultados de desejos individuais; são sim, produzidas a partir das modificações econômicas, sociais, políticas, culturais, do aprofundamento das contradições inerentes ao próprio desenvolvimento das sociedades, e quando parcela significativa da população compreende que não é possível continuar vivendo sob a ordem existente e é necessário transformá-la.
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