quinta-feira, novembro 26, 2015

Fenômeno teatral: texto e espetáculo


Fenômeno teatral: texto e espetáculo
Pode-se considerar a teatralidade algo intrínseco ao ser humano na medida em que o teatro tem origem em rituais como danças tribais, ritos religiosos ou cerimônias públicas ou ainda na tendência humana, particularmente infantil, de experimentar o mundo por meio do jogo, do lúdico. Aristóteles (1993, p. 27; 1448b 5-9) adverte na Poética que a imitação - que não deixa de ser uma forma de teatralidade, de percepção da vida social como representação e aprendizado - é natural ao ser humano e fonte de prazer. Contemporaneamente, vemos a teatralidade ocupar muitas dimensões de nossa vida: os shows musicais de hoje são verdadeiras mega-produções que incluem dança, iluminação, encenação, pirotecnia, etc; os ritos nas igrejas, nos mais diferentes credos, retomam os efeitos teatrais remotamente utilizados na Idade Média; o teatro de rua tem sido forte instrumento de informação e/ ou conscientização social e política; a publicidade tem se valido de recursos dramáticos para a criação de propagandas dos mais diversos produtos; até mesmo as simulações de operações policiais têm seu vetor dramático. A observação desse cenário leva Martin Esslin (1978, p. 14-5) a constatar que "o drama como técnica de comunicação entre seres humanos partiu para uma fase completamente nova de desenvolvimento [...]", não podendo nossa concepção de drama restringir-se ao espetáculo teatral, afinal, "através dos veículos de comunicação de massa, o drama transformou-se em um dos mais poderosos meios de comunicação entre os seres humanos".
A palavra teatro tem origem no grego theatron que significa miradouro, lugar de onde se vê ou se observa algo, por isso o termo está associado à arte da representação cênica, indicando também o local onde a representação acontece; visão e observação implicam a ideia de público, plateia, assistência. Desse modo, o termo teatro é associado à dimensão espetacular do fenômeno teatral. Já a palavra drama, em grego, significa ação, remetendo à existência de uma tensão, de um conflito entre as vontades das personagens e uma consequente dinâmica de causa e efeito entre suas ações.

Diferentemente dos demais gêneros, o estudo do gênero dramático implica uma dupla dimensão: o estudo do texto, o que chamamos literatura dramática, e o estudo do espetáculo, a outra face do fenômeno teatral. Em sua origem, na Grécia antiga, e conforme teorizado por Aristóteles, o drama caracteriza-se pelo modo de imitação que prescinde da mediação de uma instância narrativa, lançando mão de atores que-agem diretamente; por isso, ao tratar das partes da tragédia, Aristóteles (1993, p. 39; 1449b 32-33) afirma que "o espetáculo cênico há de ser necessariamente uma das partes da tragédia". Mas o próprio teórico, mais adiante, considera o espetáculo cênico "o mais emocionante, mas também [é] o menos artístico e o menos próprio da poesia. Na verdade, mesmo sem a representação e sem atores, pode a tragédia manifestar seus efeitos; além disso, a realização de um bom espetáculo mais depende do cenógrafo que do poeta" (ARISTÓTELES, 1993, p. 45; 1450b 17-20). Aristóteles tanto nos faz considerar o espetáculo como parte essencial do drama quanto nos lembra que o texto pode atingir suas finalidades independentemente da representação cênica. Ou seja, apenas abre caminho para que ganhem corpo as discussões sobre a prevalência do texto sobre o espetáculo e vice-versa.
Trabalhos recentes têm procurado aparar essas arestas do texto aristotélico, dentre eles o de Daisi Malhadas (2003), cuja proposta é compreender o papel e a importância do espetáculo no contexto da produção dramática clássica e das formulações aristotélicas. Apoiada na primeira afirmação aqui mencionada, a autora demonstra que a organização da ação das tragédias clássicas contempla a dimensão espetacular do texto. Resumidamente, podemos afirmar que a palavra adquire uma dimensão espetacular ao conduzir à visualização de gestos, movimentos, expressões etc.
A relação de interdependência entre texto e espetáculo tem sido alvo da reflexão de vários estudiosos, muitas vezes dividindo opiniões. Para alguns, o texto dramático só se realiza plenamente quando de sua atualização cênica, como afirma Anatol Rosenfeld (1997, p. 35): "O paradoxo da literatura dramática é que ela não se contenta em ser literatura, já que, sendo 'incompleta', exige a complementação cênica". Também Martin Esslin (1978, p. 16), ao procurar estabelecer a natureza do drama, afirma: "O que faz com que o drama seja drama é precisamente o elemento que reside fora e além das palavras, e que tem de ser visto como ação - ou representado - para que os conceitos do autor alcancem sua plenitude". Outros discordam da ideia de incompletude do texto dramático, afirmando sua autonomia, ou melhor, a autonomia de ambas as manifestações:

[...] A literatura dramática possui uma vitalidade própria, que no palco pode ser realçada ou não, dependendo da competência do encenador, do cenógrafo, dos artistas etc. [...]. Quer dizer, se o espetáculo teatral é autônomo em relação à dramaturgia, a recíproca também é verdadeira. Uma peça pode ser lida, apreciada e estudada em sua forma original (FARIA, 1998, p. 10).
Sábato Magaldi (1991, p. 8) propõe uma posição mais abrangente, considerando que já em sua essência a literatura dramática pressupõe a ideia de representação, pois "no teatro dramático ou declamado [...] são essenciais três elementos: o ator, o texto e o público. O fenômeno teatral não se processa sem a conjunção dessa tríade". Observemos que o autor não estabelece nenhum tipo de hierarquia entre os elementos, colocando-os em pé de igualdade, todos concorrendo igualmente para a realização plena do fenômeno teatral.
Portanto, quando se questiona a autonomia do texto dramático em relação à representação ou vice-versa, optamos por afirmar que ambos sejam autônomos, sendo possível o estudo do texto dramático desvinculado da encenação, assim como a representação cênica pode compor-se a partir de outros processos criativos que não o texto dramático em sua forma convencional. Contudo, devemos lembrar que o texto dramático demanda uma leitura diferenciada na medida em que é produzido tendo em vista uma possível representação. A própria estrutura do texto obedece a uma dinâmica específica, exigindo do leitor atenção à fluidez dos diálogos e às indicações cênicas, necessárias para a caracterização das personagens e compreensão da ação que se desenrola. É claro que a narrativa e o poema também requerem esforços imaginativos por parte do leitor, mas no texto dramático isso é imprescindível para a compreensão de sua substancia.
Virtualmente, o espetáculo está inscrito no texto dramático. Caracterização de personagens e movimento de atores, iluminação e marcações, gestos e atitudes, tudo vem indicado nas rubricas, também chamadas de didascálias ou indicações cênicas. A lista de personagens, a indicação do cenário, as entradas e saídas de personagens e até mesmo sugestões de encenação também fazem parte das rubricas, ou seja, elas correspondem às orientações propostas pelo autor (ou por editores), destinadas a esclarecer leitores e encenadores. Geralmente aparecem entre parênteses e em itálico a fim de serem distintas das falas das personagens. Como exemplo, vejamos a indicação cênica inicial do texto infantil A bruxinha que era boa (1958), de Maria Clara Machado (1921-2001):

Cenário Único: UMA FLORESTA
(Vcctti-sc as cinco bnixinhas em fila e a bmxa-instrutora, de costas. Todas estão montadas em vassouras. A de costas, que é a bmxa-chefe, apita e as bnixinhas dão direita-voíver. A bmxa-instrutora dá outro apito. As bnixinhas começam a cavalgar em torno da cena, sempre montadas em suas vassouras. A bruxa- instmtora toma a apitar, elas param) (MACHADO, 1994, p. 7).
O cenário é indicado de forma bem direta, simplesmente uma "floresta", sem qualquer descrição. Na leitura, somos levados a imaginá-la, ao passo que na encenação a floresta deve ser materializada diante dos olhos dos espectadores. A indicação cênica é responsável pela apresentação das personagens, demarcando movimentos e posições. O bom dramaturgo tem sempre em mente a dimensão espetacular do texto de teatro, como atestam as rubricas de Auto da Compadecida (1955), de Ariano Suassuna (1927- ), onde se leem indicações como "esta cena, a partir daqui, é cortáuel, a critério do encenador" (SUASSUNA, 1983, p. 57) ou "Aqui o espetáculo pode ser interrompido, a critério do ensaiador, tnarcando-se o fim do primeiro aton (SUASSUNA, 1983, p. 71), demonstrando que o dramaturgo leva em consideração, já na composição do texto, a leitura do encenador, isto é, esse segundo nível de enunciação (do espetáculo) intrínseco à natureza do fenômeno teatral.
Outro aspecto a ser considerado na relação texto/ espetáculo é a perenidade de um versus a efemeridade do outro. Um espetáculo teatral é sempre único: a cada apresentação, os atores repetem gestos e palavras, mas experimentando-os sempre de um novo modo, atualizando, paradoxalmente, algo igual e diferente. A relação com o público nunca se repete, pois boa parte da dinâmica de um espetáculo se deve à reação da platéia, incluindo aqui a necessária presença de espírito dos atores diante de incidentes fortuitos que possam ocorrer durante a execução da cena (falha de equipamentos, barulhos externos, intervenções inesperadas dos espectadores, etc). O espetáculo cênico se realiza sempre num presente irreproduzível. Ao contrário, o texto dramático é a porção perene do fenômeno teatral: findo o espetáculo, resta o texto a ser estudado, analisado, relido, reinterpretado, reencenado. O mesmo texto dramático permite infinitas montagens cênicas, cada uma correspondendo a certa leitura e interpretação do texto, umas mais próximas, outras mais distantes do "original". A montagem de um texto dramático configura uma nova enunciação do texto, um modo de dar-lhe outra forma de existência.
Para a criação e circulação do texto dramático basta existir o dramaturgo, o texto por ele produzido e um leitor, mas a enunciação cênica do texto dramático demanda a concorrência de vários elementos como música, cenografia, coreografia, figurino, iluminação, sonoplastia etc. A enunciação cênica alicerça-se sobre o trabalho do ator, o qual conta com a orientação do diretor ou do encenador, pois, "o dramaturgo é o autor do texto, o encenador é o autor do espetáculo" (MAGALDI, 1991, p. 12).
Gênero dramático
Mesmo sabendo que os gêneros literários não são puros nem estanques, funcionando o mais das vezes como classificações didáticas, é válido um esforço para caracterizar o gênero dramático. O ponto de partida é a Poética de Aristóteles. Nela lemos que há várias espécies de poesia, diferentes entre si em três aspectos: "ou porque imitam por meios diversos, ou porque imitam objetos diversos ou porque imitam por modos diversos e não da mesma maneira" (ARISTÓTELES, 1993, p. 17; 1447a 16-18). A tragédia é a espécie de poesia merecedora de maior atenção por parte do teórico. O meio de imitação utilizado pela tragédia é a linguagem poetizada que inclui o ritmo, o canto e o metro. O objeto de imitação é a ação de homens de caráter elevado. Esses dois elementos são os pontos comuns entre a tragédia e a epopeia; é apenas no modo de imitação que esses dois gêneros diferem, pois enquanto a epopeia é imitação que se efetua por narrativa, isto é, com o autor desdobrando-se em voz do narrador e vozes das personagens, a tragédia permite que as pessoas imitadas ajam por elas mesmas. Composiçoes como as tragédias e as comédias, portanto, denominam-se "dramas, pelo fato de se imitarem agentes [drôntas]" (ARISTÓTELES, 1993, p. 25; 1448a 29).

Embora o texto dramático englobe também uma narrativa, há algumas diferenças entre os dois gêneros, expostas no quadro abaixo:


NARRATIVA
DRAMA
ENREDO
Permite multiplicidade de núcleos narrativos. Pode se desenvolver e se desdobrar em muitos episódios.
Concentrado em uma ação nuclear. Circunscrito a poucos episódios.
PERSONAGENS
Podem ser inumeráveis e apresentar múltiplas dimensões, sendo possível descrevê-las em pormenores e analisar seu íntimo cuidadosamente.
Em número reduzido e retratadas com pinceladas precisas. Traços essenciais, valores e formas de pensar são revelados por atitudes e pelo diálogo.
TEMPO
Pode ser distendido indefinidamente, acolhendo antecipações ou flashback. Possibilita grandes transformações das personagens.
Reduzido ao necessário para o desenlace do conflito, focalizando as personagens numa situação bastante específica.
ESPAÇO
Múltiplo e variado. Pode ser descrito minuciosamente.
Limitado ao essencial. Organizado em função das necessidades do desenrolar da ação. Geralmente reduzido a um ou dois ambientes.
RECEPÇÃO
Ritmo da leitura solitária.
A leitura das indicações cênicas possibilita a construção imaginária de espaços, movimentos e caracteres. Prevê a recepção coletiva pelo público no teatro.
Quadro 1. Diferença entre o texto narrativo e o texto dramático
CON­FLITO
CARACTE­RIZAÇÃO
EXEMPLO
Personagem contra ela mesma
Forças divergentes coexistem no interior da mesma personagem
Thérèse, protagonista da peça La sauvage (A selvagem, 1934), de Jean Anouilh (1910-1987), é uma bela jovem de bom caráter, mas pertence a uma família interesseira e de moral questionável. Um jovem rico se apaixona por ela, sendo correspondido. Mesmo não havendo nenhum obstáculo exterior à concretização do romance, Thérèse não se sente à altura do amado e, impelida pelo sentimento de honra, abre mão do amor e da felicidade.
Uma
personagem contra outra
Desejo de uma personagem é interditado pela vontade de outra, configurando assim um clássico conflito de vontades. O conflito também pode se dar entre concepções de mundo ou valores morais divergentes
Na tragédia clássica Medéia (431 a.C), de Eurípides (480 a.C. - 406 a.C.), a protagonista abandona sua terra natal e trai o pai e o irmão por amor a Jasão, com quem tem dois filhos. Ela luta para preservar a união, mas Jasão decide abandoná-la para casar-se com Creusa, a filha do rei, inspirando assim a vingança brutal de Medeia que mata os próprios filhos.
Personagem contra a sociedade
A personagem infringe uma regra social e corre o risco das sanções cabíveis
A situação dramática de O pagador de promessas (1960), de Dias Gomes (1922- 1999), ilustra esse tipo de conflito. Zé-do-burro promete a Iansã/ Santa Bárbara carregar uma cruz até a igreja caso seu burro de estimação seja salvo, mas é impedido de cumprir sua promessa sob argumento do Padre de ter cometido uma heresia ao misturar o catolicismo ao candomblé. A personagem luta até a morte contra várias forças sociais: normas religiosas, repressão policial, exploração comercial e manipulação da imprensa.
Personagem contra forças superiores
Essas forças podem ser o universo, os deuses, forças naturais, o absurdo etc. Típico conflito das tragédias clássicas ou de peças do teatro do absurdo
Em Édipo-rei (431 a.C.), de Sófocles, a ação gira em torno da tentativa de Édipo de fugir ao destino anunciado por um oráculo: matar o pai e unir-se à mãe. Paradoxalmente, quanto mais ele se esforça para escapar aos fatos trágicos, mais caminha em direção a eles.
O absurdo de uma espera vã é o obstáculo que configura o conflito dramático de Esperando Godot (1952), de Samuel Beckett (1906-1989). Dois mendigos, Vladimir e Estragon, permanecem num ponto da estrada à espera de Godot, que simplesmente não chega. O diálogo das personagens revela gradativamente o absurdo da existência humana.

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O gênero dramático apresenta o mundo como se fosse autônomo, livre da visão determinante de personagens ou narradores. A ação deve obedecer a um encadeamento causal a fim de que a intriga caminhe coerentemente rumo à resolução do conflito. "O gênero dramático tem como elemento principal a tensão entre antagonistas, traduzindo um conflito entre o 'eu' e o 'mundo'. A ação narrada implica um choque de oposições, onde há uma tentativa de superar o conflito incidindo sobre o interlocutor, o 'tu'" (VASSALLO, 1983, p. 5).

É possível estabelecer os traços estilísticos fundamentais da obra dramática pura, isto é, identificar as características do gênero em sua manifestação exemplar. Um bom exemplo de texto que obedece às regras abaixo é Fedra, de Racine (1639-1699). O texto é de 1677, época em que o Classicismo francês opera um resgate da Poética, tomando as observações de Aristóteles como prescrições e levando-as às últimas consequências.



TRAÇOS ESTILÍSTICOS FUNDAMENTAIS DA OBRA DRAMÁTICA PURA

       apagamento das figuras do autor c do narrador por meio do diálogo direto entre as personagens;
        mecanismo dramático deve desenrolar-se sozinho, por meio da ação das personagens e sem a interferência de um mediador (narrador);
       ponto de arranque do texto coincide com o desencadeamento imediato da ação, da qual apenas os pontos essenciais devem ser retratados;
       ação deve obedecer a um rígido encadeamento causal;
       um conflito de vontades desencadeia a ação;
       o drama representa sempre um presente que caminha para o futuro (desenrolar da ação e seu desfecho);
       as categorias essenciais do drama são ação, diálogo e conflito dramático;
       respeito às unidades de ação (concentrada no essencial), lugar (preferencialmente único) e tempo (apenas o necessário para que o conflito chegue ao desenlace).


Essa forma de drama estabelece-se com o teatro grego e posteriormente é erigido em modelo incontestável de boa composição durante o Classicismo francês (séculoXVII). A despeito disso, mestres como Shakespeare (1564-1616) provam que qualidade estética não está subordinada à fidelidade a modelos. O Romantismo, herdeiro das inovações shakespearianas, propala a mistura de gêneros e defende a liberdade de criação literária acima de qualquer modelo, por mais bem-sucedido que seja. Deriva daí uma moderna concepção dos gêneros literários, segundo a qual não há pureza absoluta dos gêneros. Emil Staiger (1975, p. 15) considera o "tom" da obra muitas vezes mais importante do que sua estrutura na determinação do gênero. Para ele, não existe uma obra puramente lírica ou dramática, pois "qualquer obra autêntica participa em diferentes graus e modos dos três gêneros literários, e [...] essa diferença de participação vai explicar a grande multiplicidade de tipos já realizados historicamente". No caso do texto para teatro, a classificação nesse ou naquele gênero ou forma é menos importante do que sua funcionalidade dramática.
Ao tratar do estilo dramático - portanto, de características que podem estar presentes tanto no texto dramático quanto no narrativo ou poético -, Staiger (1975) aponta a tensão como seu elemento primordial. Há duas formas de expressão do estilo dramático: o pathos (sofrimento, emoção, circunstâncias que provocam piedade ou tristeza) e o estilo problemático, ambas organizadas em torno da tensão. A primeira pauta-se pela distância entre o que é representado e o público; o elemento dramático causa tanto mais emoções quanto maior for essa distância e a tensão concentra-se na expectativa em torno do fato principal (a vingança de Hamlet na peça homônima, por exemplo, perpetrada apenas na última cena, mas em torno da qual se organiza toda a fabulação do texto). O estilo problemático concentra-se em torno de um problema ou de uma ideia. A tensão é alimentada pela pergunta "por que razão?", motor do interesse do leitor. O problema em torno do qual a peça se organiza esboça-se desde seu início, mas só é plenamente revelado ao final. As duas modalidades de expressão da tensão do estilo dramático podem ser combinadas na mesma peça. Resumindo, a tensão dramática é o conjunto de elementos que faz o leitor ater-se à trama, colocando-o em constante estado de expectativa, alimentando sua ansiedade pelo desenrolar dos fatos.
A tensão dramática é um elemento essencial ao desenvolvimento da comédia, com a diferença de que "o autor cômico cria a tensão para desfazê-la em seguida" (STAIGER, 1975, p. 158). Esse movimento de tensão dramática e distensão cômica pode ser facilmente observado no desenrolar da ação dcAuto da Compadecida de Suassuna. Há sempre um problema para o qual João Grilo, sertanejo esperto e bom de lábia, encontra uma solução que evite outros problemas ou lhe traga vantagens. Mas a solução para uma situação acaba tornando-se um novo problema. Para convencer Padre João a benzer a cachorra da mulher do padeiro, ele o faz pensar que o cachorro doente é de propriedade do Coronel Antonio Morais. Para não arranjar problema com o Coronel, diz-lhe que o Padre está louco, chamando a todos de "cachorro". Logo, a cada enrascada em que se mete João, cria-se uma tensão, desfeita comicamente a cada solução encontrada por ele, normalmente um novo golpe sobre a ingenuidade dos demais. Até mesmo no julgamento final, na presença de Manuel e Nossa Senhora, o sertanejo dá um jeitp de enrolar o próprio Eucourado (demônio).

Rosenfeld (1997) propõe dois modos de compreensão dos gêneros: o significado substantivo e o significado adjetivo. A "dramática", em seu sentido substantivo, pertencem obras cuja estrutura é dialogada c em que as personagens agem diretamente sem a mediação de um narrador. Contudo, considerando- se que toda obra literária possui "traços estilísticos" que vão além da acepção substantiva de gênero, é possível falar em drama lírico ou drama épico, por exemplo. Isso significa que, embora o texto obedeça a estrutura do texto dramático, possui características de estilo ou linguagem que o aproximam do gênero lírico ou narrativo. O marinheiro, peça escrita por Fernando Pessoa (1888-1935) em 1913 e cujo subtítulo é "drama estático", é um exemplo de como o texto dramático pode assimilar traços do gênero lírico. A peça se limita ao diálogo entre três veladoras mergulhadas num ambiente onírico emoldurado pelo mar e pela noite. Embora as personagens dialoguem constantemente, a expressão poética de sentimentos e desejos dá o tom da peça, ou seja, ao permitir a expressão, em primeira pessoa, do estado de alma das personagens, a peça assimila o traço fundamental do gênero lírico, como na passagem abaixo:
PRIMEIRA — Minha irmã, cm mim tudo é triste. Passo dezembros na alma... Estou procurando não olhar para a janela... Sei que de lá se veem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem. Não sei o que isto tem de irreparável que mc dá vontade de chorar... Foi longe daqui que isto pôde ser... Quando virá o dia?... (PESSOA, 2003, p. 5).
O mesmo procedimento é possível em relação ao épico. Embora o que caracteriza o gênero dramático seja a ausência de um mediador na apresentação da intriga, o texto dramático pode lançar mão de expedientes tipicamente narrativos como a presença de um mensageiro que relata fatos acontecidos fora do palco ou num tempo distante ou o recurso ao monólogo, forma de expressão da interioridade da personagem, chegando a procedimentos mais explícitos como os usados por Bertolt Brecht (1898-1956) na criação do teatro épico. Segundo Brecht, o teatro épico deve mostrar ações de uma forma objetiva, de modo que o espectador consiga manter um distanciamento em relação à ação relatada. Para alcançar esse efeito, são constantes cortes e interrupções na ação e nos diálogos, inserindo a figura do narrador como mediador da ação dramática. Na peça O círculo de giz caucasiano (1943-1945) o dramaturgo chega a usar até mesmo o discurso indireto em vez de permitir que as personagens falem por si mesmas. Enquanto Grusche - uma piedosa serviçal que decide proteger a vida do filho de um rico governador - está em fuga, uma personagem assume a função de narrador não só para relatar seus gestos, mas também para contar ao leitor/ público seus pensamentos.
Cantor -
Enquanto se demora,
Entre a porta e o portão, ela escuta                                                              *
Ou parece escutar um suave chamado: é o menino
Que lhe faz um apelo, bem claro e sem choramingar,
Pelo menos assim tinha ela a impressão de escutar:
"Moça, moça, me ajude"
- dizia, claro e sem chorar - [...]
Isto ouvindo...
Grtische dá alguns passos em direção ao Menino e inclina-se sobre ele. Cantor -
...ela volta e vai ver o Menino outra vez, junto dele se senta,
a esperar se não chega mais gente: [...] (BRECHT, 1992, p. 208-9).
Os experimentalismos do teatro moderno são outro momento de ruptura com o conjunto de elementos que caracterizam o drama em sua forma pura, inclusive porque ele entra em crise em meados do século XIX em função de um descompasso entre a forma e os temas que passam a ser tratados pelos dramaturgos. Na obra Teoria do drama moderno, Peter Szondi investiga a ocorrência de uma crise da forma do drama, que exige, por parte dos dramaturgos, a experimentação de procedimentos de renovação dramatúrgica. Para Szondi (2003, p. 29), a característica do drama da época moderna, surgido no Renascimento, é a "reprodução das relações intersubjetivas" como modo de representação dramátiôa do mundo; a base do drama, portanto, é o diálogo. A consequência dessa afirmação é que "da possibilidade do diálogo depende a possibilidade do drama" (SZONDI, 2003, p. 34).

As transformações sociais e econômicas da segunda metade do século XIX levam os dramaturgos a adotar novas temáticas, colocando em cena personagens para as quais as relações intersubjetivas perdem espaço para a exposição de sua interioridade. Dramaturgos como Henrik Ibsen (1828-1906), August Strindberg (1849-1912) e Anton Tchekhov (1860-1904) criam personagens e intrigas que já não são abarcadas pela forma dramática tradicional, cujo suporte é o diálogo. Szondi (2003, p. 91) considera esse um momento de crise do drama: "Enquanto forma poética do fato presente e intersubjetivo, o drama entrou em crise por volta do final do século XIX". Assim, o fato perde espaço para uma situação com menor concretude, o presente é substituído pelo sonho e pelç retorno ao passado, e o conteúdo intersubjetivo é banido em favor da presença do intrasubjetivo e monológico.

Um exemplo dessa crise pode ser encontrado no tratamento dado à categoria tempo. O gênero dramático define-se por fixar-se no tempo presente: é apenas a ação que se desenrola no aqui e agora que interessa ao drama. Nos chamados "dramaturgos da crise", a situação presente é apenas um pretexto para que o passado seja colocado em cena. No primeiro ato de Casa de bonecas (1879), Ibsen cria uma situação dramática propícia à rememoração do passado: Nora recebe a visita de uma amiga a quem não vê há uns 10 anos. Esse reencontro possibilita que Nora lhe fale sobre a doença do marido e os sacrifícios feitos para pagar-lhe um tratamento, assim como permite a Cristina recordar seu próprio casamento e a doença da mãe, circunstâncias que também exigiram sacrifícios de sua parte. Desse modo, embora a ação localize-se num presente auspicioso em meio aos preparativos para o Natal, todo o diálogo das personagens retrata o passado que, aliás, determina seus modos de pensar e agir no presente.

Elementos fundamentais do texto dramático
Ação
Conforme denuncia a etimologia do termo drama, a ação é o elemento fundamental do texto dramático; tudo o mais se organiza a partir de e em torno dele. "A ação resulta daquilo que uma personagem jaz para conseguir o que [...] quer (motivação), a despeito dos obstáculos" (BALL, 1999, p. 89). Ler uma peça de teatro é estar diante de uma série de ações não apenas concatenadas umas às outras, mas uma decorrendo diretamente da anterior. A conexão entre duas ações permite a progressão da peça, portanto, há sempre uma expectativa em relação ao que se seguirá após um determinado evento. Se uma personagem abre a porta (ação 1) e outra personagem entra (ação 2), o leitor/espectador fica à espera do que irá acontecer. Se a segunda personagem atira um copo de água no rosto da outra (ação 1), espera-se uma reação que, por conseguinte, detonará uma nova ação, e assim até o desfecho da peça. A metáfora do jogo de dominó, utilizada por David Ball (1999), ilustra com exatidão o mecanismo de uma peça de teatro. Ela é como um dominó cujas peças (pequenos eventos ou ações) são alinhadas em pé uma após a outra; quando a primeira pedra recebe um impulso (desencadeamento da ação), imediatamente se lança sobre a próxima e assim por diante, até chegar ao fim das peças e, portanto, ao desfecho da ação apresentada. Uma breve análise dos episódios iniciais de Hamlet (1603) de Shakespeare ilustra esse mecanismo.

A situação inicial da peça é de equilíbrio, a despeito da tristeza de Hamlet pela morte de seu pai e rei e pelo casamento precipitado da mãe com seu tio Cláudio. O que detona a ação é a aparição do fantasma do rei falecido. Revelando suas intenções apenas a Hamlet, antes mesmo de confirmar sua identidade e relatar as circunstâncias de sua morte, pede ao filho que se disponha a vingar-lhe a morte. Com essa exigência solene, a personagem instala o motor principal que passa a mover a ação de Hamlet, pois revela ter sido assassinado traiçoeiramente e conclama uma vingança. A revelação do espectro (ação 1) detona a próxima ação, qual seja, o comprometimento de Hamlet com o projeto de vingança (ação 2). Esse comprometimento leva o príncipe a exigir segredo de seus guardas e amigos sobre a cena passada naquela noite de vigília (ação 3). Assim uma ação é imediatamente decorrente da anterior.

Diálogo
"Falar, no teatro ainda mais que na realidade cotidiana, sempre é agir" (PAVIS, 1999, p. 4), por isso o diálogo contribui para a dinâmica da ação no drama, sendo outra categoria essencial a sua natureza. O discurso de uma personagem pode revelar intenções (ou escondê-las), fornecer dados importantes para a compreensão da intriga ou da configuração da própria personagem, mas acima de tudo tem por objetivo agir sobre as demais. O diálogo é uma forma de manipulação do outro por meio do discurso, configurando uma luta ideológica entre as personagens; nessa luta, interrupções bruscas, silêncios ou insinuações são tão significativos quanto as palavras. Quanto mais a réplica de uma personagem é a resposta imediata à fala de outra, mais o diálogo parece autêntico e mais ele se torna dinâmico, principalmente quando as personagens compartilham o tema e a situação discursiva. Para Pavis (1999, p. 93), "há diálogo quando as falas das personagens se sucedem num ritmo suficientemente elevado; sem isto, o texto dramático assemelha-se a uma sucessão de monólogos que só mantêm relações distantes entre si". A espontaneidade dos diálogos é um aspecto relevante no drama de feição naturalista; já na tragédia clássica verifica-se uma alternância entre falas extensas e expositivas, sem deixa para uma réplica imediata, e sequências dinâmicas de falas curtas e diretas entre as personagens em embate. Em Antígona (441 a.C.), de Sófocles (aproximadamente 495 a.C.- 405 a.C.), um bom exemplo é o momento em que o rei Creonte procura justificar a interdição do sepultamento de Polinices, morto em disputa pelo trono de Tebas com o próprio irmão Etéocles. Por meio de falas incisivas, Creonte e Antígona travam um duelo verbal em que medem forças e procuram erigir em verdade universal postulados individuais. Essa dinâmica na interação verbal amplifica a dramaticidade do episódio, principalmente quando se trata de personagens de igual caráter e força.

Em alguns dramaturgos modernos, o diálogo se revela uma categoria em crise. É o caso de Tchekhov, que torna a impossibilidade do diálogo uma questão dramática, seja para a dinâmica da peça, seja para a própria teoria teatral. Em As três irmãs (1901), temos personagens mergulhadas num cotidiano medíocre e monótono ao qual elas tentam a todo custo sobreviver alimentando o sonho de retornar a Moscou e ao antigo ritmo de vida na metrópole. Amarguradas e solitárias, as personagens demonstram sua densidade por meio do discurso, não exatamente pelo diálogo, já minado por conta do isolamento em que se colocam e da incompreensão dos que as cercam. Reproduzimos um diálogo entre Andrei - o irmão de Irina, Olga e Macha, as três irmãs que dão título à peça - e um seu subordinado, o surdo Feraponte. Nesse "diálogo", não há réplicas, mas sim uma alternância de monólogos, cada uma das personagens fechada em seu próprio mundo e perdida em seus interesses:            
FERAPONTE: Como? Mas os papéis para assinar... ANDREI: Já estou farto de ti.
FERAPONTE (dando-lhe os papéis): O porteiro da Câmara do Comércio acaba de contar que neste inverno, em São Petersburgo, o termômetro foi a duzentos graus abaixo de zero. ANDREI: O presente é repugnante. Mas, quando penso no futuro, como tudo se torna maravilhoso! Sinto-me leve, sinto-me libertado e vejo ao longe surgir uma luz... Vejo a liberdade e nos vejo, meus filhos e eu, livres da ociosidade, da limonada, do ganso com repolho, do sono depois do almoço, da baixa preguiça.
FERAPONTE: Ele contou como duas mil pessoas morreram de frio. O povo, ao que ele disse, estava apavorado. Foi em São Petersburgo... ou, talvez, em Moscou... não me lembro mais.
ANDREI (deixando-se enternecer): Minhas queridas irmãs, minhas irmãs admiráveis! (sem conter as lágrimas) Macha, minha irmã Macha... (TCHEKHOY 2002, p. 142-3).

Importa observar como não há a menor troca entre as personagens, embora o texto esteja organizado em forma de diálogo; não há interação intersubjetiva. Feraponte permance alheio a toda a carga sentimental presente no discurso de seu interlocutor e Andrei, por sua vez, mantém-se indiferente às informações genéricas transmitidas pelo funcionário.
Conflito dramático
O conflito vem somar-se à ação e ao diálogo para completar o tripé sobre o qual o drama se alicerça. O conflito dramático origina-se na divergência de vontades entre as personagens. O querer de uma personagem e a existência de um obstáculo à realização desse desejo constituem a forma canónica de conflito no teatro. Para obter o que deseja, a personagem age e fala com a intenção de manipular as demais para remover os obstáculos que se interpõem à realização de seu querer. Em Lisistraía ou A greve do sexo (411 a.C.), do comediógrafo grego Aristófanes (445 a.C. - 385 a.C.), o querer das mulheres de Atenas explicita-se desde o início da ação: colocar um ponto final na guerra. Esse desejo as leva a promover uma greve de sexo, único meio de fazer os homens desistirem da guerra.
Ball (1999, p. 51-2) estabelece quatro tipos de conflitos dramáticos, podendo existir mais de um tipo na mesma peça:

Quadro 3. Conflitos dramáticos

Fábula e intriga
A definição de fábula nem sempre é consensual, principalmente quando "enredo", "intriga" ou trama" são indiscriminadamente utilizados como sinônimos do termo. Em teoria da narrativa e de acordo com Tomachevski (1976), a fábula corresponde aos fatos da narrativa ordenados logicamente, configurando uma síntese da história narrada; já trama corresponde ao modo de construção do texto, à forma como a história é dada a conhecer ao leitor (Capítulo 2). Em teoria do drama há duas acepções concorrentes para fábula: uma a considera o "material anterior à composição da peça" - isto é, lenda ou mito do qual o autor se apropria em sua criação - e outra a toma "como estrutura narrativa da história" (PAVIS, 1999, p. 157).
O ponto de origem da duplicidade podem ser traduções da Poética de Aristóteles, pois a tradução mais comum do termo mythos é fábula, mas a tradução conceituada de Eudoro de Souza propõe "mito" (que evoca a substância anterior à composição da peça), Daisi Malhadas (2003, p. 19-20) traduz por "enredo" (similar a resumo dos fatos representados, equivalente a "sistema de atos") e traduções francesas utilizam fable ou histoire (remetendo à história narrada). Para Jean-Pierre Ryngaert (1996), estabelecer a fábula (ou enredo, pois o autor considera os termos sinônimos) é destacar apenas a matéria narrativa sem considerar qualquer arranjo dramático do autor. O termo intriga corresponde, segundo o estudioso, à mecânica da peça: "fazer aparecer a intriga de uma peça consiste em colocar- se no núcleo da ficção e desenredar-lhe os fios para desnudar sua mecânica subjacente. A intriga está ligada à construção dos acontecimentos, a suas relações de causalidade, quando o enredo considera apenas uma sucessão temporal dos fatos" (RYNGAERT, 1996, p. 63).
Para analisar uma peça, interessa observar o modo como as ações, com suas peripécias (súbita mudança na situação e reviravolta na ação da peça), são organizadas pelo dramaturgo. Um mesmo conjunto de fatos responsáveis pela ação de uma peça, o mesmo "material anterior à composição da peça" (PAVIS, 1999, p. 157), pode ser organizado dramaticamente de diferentes modos, de acordo com o pendor do dramaturgo e a direção que ele queira imprimir ao texto. Um bom exemplo é o interesse do público grego pela representação cênica de mitos já conhecidos e a existência de diferentes textos clássicos que tratam dos mesmos assuntos mitológicos. Dentre as tragédias que chegaram até nós, há três textos, um de cada grande dramaturgo clássico, que se servem do mito da vingança de Orestes e Electra: As Coéforas, de Esquilo, Electra, de Sófocles e Electra, de Euripides. Todos partem da mesma matéria narrativa, do mesmo objeto modelo/ mito (MALHADAS, 2003), mas chegam a objetos poéticos diferentes por conta do modo como organizam as ações.
A divisão do texto em atos e cenas serve aos interesses da fabulação, da organização da intriga. Optar por três, quatro ou cinco atos, ou mesmo concentrar a ação em um só ato, está relacionado aos momentos de suspensão no desenvolvimento da ação. Por vezes, a divisão em atos é feita para marcar mudanças espaciais ou temporais. Quando a peça é dividida em atos, observa-se geralmente que o final de cada um é marcado por um aumento na tensão e pela instauração de uma expectativa quanto ao desenrolar da ação, como se o final do ato deixasse uma questão no ar que pode ser resolvida em acordo ou desacordo com os interesses do protagonista.
A exposição é a apresentação de elementos importantes para a compreensão da situação de que a ação é decorrente. Em Édipo-rei a fala de um ancião revela as consequências da peste que se abateu sobre a cidade e os motivos da alta consideração devotada pelo povo a seu governante Édipo. Em Antígona, a conversa entre a protagonista e sua irmã Ismena informa o leitor/ espectador sobre a situação inicial da peça: houve um fratricídio durante a luta pelo trono de Tebas e o rei publicou um édito proibindo o sepultamento de Polinices por ter trazido exércitos inimigos para invadir a cidade. Na dramaturgia moderna, muitas vezes os dados que esclarecem os antecedentes do conflito e as motivações das personagens são revelados aos poucos, não se concentrando no início da peça. As circunstâncias do passado que levam as personagens ao estado de angústia, solidão e culpa em Longa jornada noite adentro, de O'Neill, são reveladas gradativamente: apenas no ato IV são informadas as condições de penúria em que cresceu James Tyrone, o pai da família, e os reais sentimentos de Jamie por seu irmão Edmund. Essa técnica mantém o leitor/ espectador à margem de certos fatos, levando-o a construir gradativamente o perfil das personagens, necessário para a compreensão de muitas de suas atitudes.
É comum haver um nó na peça, isto é, uma complicação na performance do sujeito em busca de seu desejo. As personagens agem no sentido de desatar o nó, procurando levar a ação ao desenlace e restabelecer o equilíbrio. Vejamos o exemplo da comédia Tartufo (1664) de Molière (1622-1673):
▪ Exposição: Orgon, chefe da família, está dominado pela influência do interesseiro e manipulador Tartufo.
▪ Nó: Orgon pretende voltar atrás na promessa de conceder a mão da filha Mariane a Valère, ambos verdadeiramente apaixonados, e obrigar a filha a se casar com o falso beato. Desconfia da fidelidade da esposa, expulsa o filho de casa, isto é, o nó se torna cada vez mais intrincado, como se não houvesse meio de desatá-lo.
▪ Clímax: Tentativa de desmascarar o impostor falha e Tartufo, aproveitando-se da cegueira e ingenuidade de seu protetor, consegue tomar posse de todos os seus bens.
▪ Desenlace: Personagens conseguem garantir o casamento do par amoroso e livrar-se da presença do intruso. Como é característico da comédia, o desenlace é feliz, recuperando-se a situação inicial de felicidade familiar.
Nem todo texto dramático parte da exposição e chega claramente a um desenlace. A peça em um ato, por sua dinâmica e concentração de ação, espaço e tempo, tende a iniciar já em um momento de crise ou tensão. Neusa Sueli, personagem de Navalha na carne (1957), de Plínio Marcos (1935-1999), ao chegar em casa encontra seu cafetão Vado enfurecido por estar sem dinheiro. O conflito gira em torno de descobrir o paradeiro do dinheiro deixado pela prostituta. Ao final, descobre-se que Veludo, um homossexual, é responsável pelo roubo. Não há propriamente um desenlace: Veludo promete devolver o dinheiro, o que resolveria o problema da peça, mas por se tratar de algo mais profundo - o retrato do drama de pessoas que vivem à margem da sociedade, num ambiente degradado e violento -, tem-se a impressão de não haver propriamente um desfecho e sim a manutenção da situação apresentada pela peça, com as personagens resignando-se a degradantes condições de existência.
Personagem
Ao contrário da personagem no romance, cuja caracterização é feita pela voz do narrador, a personagem dramática cria uma ilusão de independência, uma aparente autonomia que a distancia da voz autoral. Sem o narrador para descrevê-la, seu retrato é formado por gestos, falas, circunstancias da ação. Peça central no drama, por meio da personagem todos os demais elementos podem ser materializados, tais como indicações temporais, elementos do cenário e informações sobre o enredo. O discurso das personagens é fundamental para que a peça ganhe corpo, tenha movimento, enfim, exista. O diálogo substitui a intromissão da instância narrativa, portanto, a narração do romance é substituída pela ação do drama. "O primeiro passo para penetrar na personagem é descobrir: (1) o que a personagem quer; (2) o que se antepõe à caminhada da personagem (obstáculo); (3) o que a personagem faz ou está disposta a fazer para conseguir o que quer" (BALL, 1999, p. 89).
A caracterização da personagem dramática exige economia e concentração de detalhes, por isso deve-se ter uma ideia de sua classe social, ideais e valores no menor tempo possível e por meio de traços fortes e significativos. Em algumas formas dramáticas, o uso de alegorias (autos) e personagens arquetípicas (commedia dell 'arte) tem a função de facilitar a apreensão da totalidade da personagem. De acordo com Prado (1970), há três modos de caracterização da personagem dramática:
a)       O que a personagem revela sobre si mesma



Para revelar seu interior, a personagem recorre ao diálogo.  Estados de espírito, reflexões íntimas e pensamentos, expostos no romance com o auxílio da onisciência do narrador ou do fluxo de consciência da personagem, têm de ser tornados cocretos por meio do diálogo, isto é, pelo que uma personagem diz. Concorrem para essa exposição interior três expedientes recorrentes na história da dramaturgia ocidental: a figura dp confidente, o aparte e o monólogo.
O confidente, como o próprio nome aponta, é o guardião da intimidade do protagonista, a quem este revela seus segredos, sentimentos e intenções. Encontramos esse tipo de personagem tanto na tragédia grega - muitas vezes o Coro desempenha esse papel quanto no teatro clássico francês - em Fedra, as personagens envolvidas nos conflitos amorosos têm seus confidentes - ou em textos cômicos como os de Molière, que recorre com frequência ao expediente.
O aparte implica a ruptura da quarta parede, barreira imaginária que separa público e palco, mantendo esses espaços incomunicáveis; é um recurso típico do teatro ilusionista em que a presença do público é desconsiderada e o palco representa um universo autônomo. Respeitar a quarta parede reforça o efeito ilusionista da representação teatral; desconsiderá-la surte um efeito de ruptura da ilusão dramática. Ao fazer um aparte, a personagem faz do público um confidente, ou seja, cúmplice de suas ações, sem revelar suas intenções às outras personagens. Na comédia, o aparte permite instaurar um jogo entre o que .diz a personagem e o que ela pensa de fato; é o que podemos encontrar em O Judas em Sábado de Aleluia (1844), de Martins Pena (1815-1848). Maricota é uma moça namoradeira às voltas com vários pretendentes; um deles, Capitão Ambrósio, propõe-lhe uma fuga e ela argumenta necessitar de uma soma em dinheiro para poder aceitar a proposta. Apenas ao público revela suas reais intenções:
MARICOTA, à parte — Pateta, não percebe que [o dinheiro] era um pretexto para lhe não dizer que não, e tê-lo sempre preso? CAPITÃO — Não respondes?
MARICOTA — Pois sim. (À parte): Era preciso que eu fosse tola. Se eu fugir, ele não se casa (PENA, 2004, p. 92; grifo nosso).
O monólogo é considerado por muitos teóricos um recurso que trai a natureza do drama, beirando ao inverossímil, afinal, não é convincente que a personagem "fale sozinha" no palco; contudo, é relativamente comum. O mais célebre exemplo é o monólogo de Hamlet às voltas com sua própria consciência refletindo sobre a necessidade de vingar a morte do pai e o meio mais justo de fazê-lo. Algumas vezes a personagem pronuncia pequenas frases, sempre reveladoras, ao se ver sozinha em cena; embora o destinatário seja o público, tem a aparência de um solilóquio com a mesma funcionalidade do monólogo, mas sem a ruptura da ilusão do aparte (ao menos num teatro de concepção dramática).
b)   O que a personagem faz

Embora a personagem se dê a conhecer por meio do discurso, do diálogo e seus desdobramentos, o mais condizente com a natureza do drama é ela revelar-se em ação. Os estados de espírito manifestam-sc pelos gestos, o conflito faz emergir suas intenções. O encaminhamento da ação, o desenrolar da intriga mostram as opções da personagem e estratégias rumo à concretização de seu querer, de seus objetivos. Melhor do que um aparte para revelar intenções escusas é elas serem percebidas por pequenas atitudes e expressões da personagem. No segundo ato de Casa de bonecas, Nora insiste para o marido ensaiá-la para dançar numa festa, mas não consegue acompanhar o compasso do piano, dançando violenta e alucinadamente. Seu objetivo, na verdade, é impedir que o marido receba uma carta revelando que ela havia falsificado a assinatura do pai num documento. O ritmo da dança (gesto físico) expõe sua tensão, a intensidade de seu desespero a ponto de o próprio marido dizer "Nora, meu amor, você está dançando como se sua vida dependesse disso!" (IBSEN, 2003, p. 132).
c)   O que outros dizem sobre a personagem

Essa forma de caracterização da personagem diz respeito à relação autor/ personagem. A despeito da pretensa autonomia da personagem dramática, há por trás de sua criação uma voz autoral, responsável tanto pelo que ela diz quanto pelo que dizem dela. Há dramaturgos que escolhem uma personagem como porta-voz ou então fazem de toda a situação dramática e do diálogo uma forma de expressão de  sua visão de mundo. Entre quatro paredes (1944) e As moscas (1943) - esta última uma reescritura do mito da vingança de Orestes e Electra- de Jean-Paul Sartre (1905-1980) são bons exemplos disso, afinal, por meio da dramaturgia o pensador francês consegue demonstrar a exata medida da filosofia existencialista, utilizando as personagens e a situação dramática em que estão envolvidas para demonstrar que não há essência humana predeterminada e se é responsável por todos os atos praticados e escolhas feitas. Ou seja: o teatro torna-se um espaço de discussão de ideias e difusão de filosofias.
Por outro lado, há textos dramáticos que seguem na direção oposta: elevam ao grau máximo a ilusão de independência da personagem em relação a seu criador. Um expediente eficaz para isso é ser o mais fiel possível à linguagem correspondente ao universo social da personagem - incorporação de gírias, características regionais ou jargão técnico - ou permitir diferentes pontos de vista dentre as personagens sem que nenhum deles possa ser estritamente identificado ao ponto de vista do autor. Um caso extremo de simulação de independência das personagens é Seis personagens à procura de um autor (1921), de Luigi Pirandello (1867-1936). Depois de criadas por um autor, essas seis personagens foram descartadas, isto é, seu drama foi apenas imaginado mas jamais posto no papel. Em busca de uma vida ficcional plena e autêntica, elas invadem os ensaios de uma trupe e procuram orientar os atores profissionais a representar o melhor possível seu drama. Nesse caso, as personagens não só são autônomas em relação ao autor, mas vivem à revelia de sua vontade.
Espaço/Tempo

O espaço teatral é multidimensional: arquitetônico, cenográfico e dramatúrgico; visual e verbal. Por meio das rubricas, o texto prevê a materialização de certos signos que constituem o espaço cênico, ou seja, aquilo que está materializado e visível diante dos olhos do espectador (espaço mimético); mas há também um espaço extracênico, mediado pela linguagem, o espaço diegético. O discurso das personagens confere uma existência verbal (não visual) a certos signos (FACHIN, 1998); por exemplo, uma personagem pode apontar discursivamente objetos não presentes de fato no ambiente. E diegética também a referência a fatos passados fora da cena ou num tempo distante; a cena tem apenas existência verbal, narrativa.
O tempo também pode ser dividido em tempo cênico e dramático, o primeiro referindo-se ao tempo do espectador diante do espetáculo (duração da apresentação) e o segundo ao tempo em que se passa a ação da peça, à temporalidade dos fatos. Da relação entre essas duas temporalidades - da representação e da ação representada - surge o que Pavis (1999, p. 400) chama tempo teatral.
A regra das três unidades - ação, tempo, espaço - reinou em diferentes momentos da dramaturgia ocidental, particularmente na tragédia grega e no Classicismo francês. Fruto de uma interpretação ortodoxa do pensamento aristotélico, ela prega que a) a ação seja única, sem desdobramentos em intrigas secundárias; b) não ultrapasse o tempo estritamente necessário para que a ação caminhe da exposição do conflito para seu desenlace; e c) utilize um único espaço em torno do qual toda a ação se desenrola.
A unidade de ação determina as duas outras. Além disso, certas características do gênero dramático - concisão, dinamismo, economia de traços e elementos - acabam exigindo a concentração da ação em espaços únicos e um tempo reduzido e bem delimitado. O texto dramático é pensado para a representação e algumas opções do dramaturgo são guiadas pelas possibilidades técnicas de futuras encenações da peça. Para nos atermos apenas a exemplos já utilizados até agora, podemos mencionar alguns textos modernos como Casa de bonecas, Longa jornada noite adentro, Esperando Godot, Entre quatro paredes, Seis personagens à procura de um autor, O pagador de promessas e Navalha na carne dentre tantos outros que, mesmo sem qualquer preocupação com a regra das três unidades, optam por uma concentração espacial e temporal que facilita o desenvolver da ação e a representação cênica do texto.
O mesmo não pode ser dito sobre o teatro épico. Optando por uma ação apresentada em curvas e saltos e permitindo avanços e recuos temporais, a proposta de dramaturgia épica brechtiana não demonstra a mínima preocupação com as unidades. Em O círculo de giz caucasiano há várias intrigas paralelas - o salvamento do menino Miguel, o noivado de Grusche, a saga do juiz Asdak – que pulverizam a ação em tempos e espaços absolutamente diversificados. A peça - cuja açao contempla aproximadamente dois anos e cuja enunciação cênica completa leva aproximadamente tres horas e meia - possui recuos temporais e grande diversidade espacial, tudo facilitado pela inserção de recursos narrativos.
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Outras vezes a ruptura das unidades torna-se o elemento que confere originalidade ao texto. E o caso da dramaturgia shakespeariano Em suas peças, podemos obseivar paralelismos na fábula - em Rei Lear, o tema da traição é desenvolvido tanto pelas ações das filhas do rei Lear, quanto por Edmundo, filho bastardo do conde de Glócester - ou mudanças espaciais significativas. Na mesma peça, a cena I do primeiro ato se passa no palácio do rei, a próxima cena já é no castelo do conde de Glóscester e a terceira no palácio do Duque de Albany. Vestido de noiva (1943) de Nelson Rodrigues (1912-1*80), é o marco do teatro moderno no Brasil por, dentre outras qualidades, propor uma açao que se passa em três planos diferentes - a realidade, a alucinação e a memória, os dois últimos filtrados pela mente desagregada da protagonista Alaíde -, constituindo-se num quebra-cabeça cuja montagem exige a relação entre diversas diretrizes temporais e espaciais.

Formas dramáticas
O gênero dramático passou por modificações ao longo dos séculos desde seu surgimento na Grécia antiga e tem tomado as mais diferentes formas, sempre ligadas ao contexto histórico-social e às concepções estéticas da época. Atualmente, a expressão formas dramáticas tem tido uso mais corrente por ilustrar melhor a mistura de gêneros, a ideia de estrutura textual e abarcar a multiplicidade de formas criadas pelo teatro ao longo da história. Por serem muitas, optamos por enumerar as mais conhecidas e praticadas pela dramaturgia ocidental e apresentar-lhes apenas os traços mais característicos.
Tragédia: segundo a sistematização de Aristóteles (1993, 1449b 24-28), a tragédia responde pela "imitação de uma ação de caráter elevado", cuja organização seja coerente e completa e cuja extensão não ultrapasse o tempo necessário para a passagem da felicidade para a infelicidade. Essa imitação deve efetuar-se com a concorrência de atores, sem a mediação de um narrador e provocar a catarse, isto é, suscitar "terror e piedade" tendo em vista a purificação dessas emoções. Em sua forma clássica, a tragédia apresenta as seguintes partes: prólogo (exposição do conflito que desencadeia a ação trágica); párodo (entrada do Coro em cena); episódios ("cenas"; encadeamento das ações e desenvolvimento da intriga); estásimos (cantos corais acompanhados da evolução cênica do Coro); êxodo (desfecho e saída de cena do Coro) (ROMILLY, 1998, p. 25).
Os protagonistas das tragédias clássicas são heróis em embate com o próprio destino (moira) e com a força dos deuses. "As noções de moira e ananké [necessidade] apresentam o destino humano como imutável e mostram o cosmos como algo organizado onde não se pode intervir sob pena da instalação do caos" (COSTA; REMÉDIOS, 1988, p. 8). Procurando guiar-se pelo próprio caráter (ethos), mas subordinado ao gênio mal (dáimon), o herói incorre na falha trágica (hamartia), impulsionado' pela desmedida (hybris); a conjugação desses elementos envolve o herói num acontecimento aterrorizante. Ao final do evento trágico, a ordem do cosmos deve ser restabelecida. Édipo-rei de Sófocles é um ótimo exemplo de encadeamento trágico da ação. A personagem central consulta o oráculo sobre seu destino e toma conhecimento de que irá assassinar seu pai e casar-se com a própria mãe. Para evitar a catástrofe e tugir ao destino, deixa seu lar em Corinto, mas numa encruzilhada da estrada, após uma discussão mata um homem e seu séquito. No caminho para Tebas, decifra o enigma da esfinge, feito pelo qual é ac amado rei, com d.reito a desposar a rainha. Embora seja movido por boas intenções e marcado por retidão de caráter Édipo sucumbe à hybris e incorre em hamartia, isto é, acredita que o conhecimento humano é capaz de controlar os fatos, quando na verdade seus atos o coduzem cegamente à ruína. Ao entregar-se à tarefa de descobrir o assassino de seu antecessor, Laio, Édipo persegue a si mesmo, pois descobre ter sido criado por pais adotivos e o homem que ele matara na encruzilhada era seu verdadeiro paio com cuja esposa, Jocasta, ele próprio tivera quatro filhos. Para restabelecer a ordem cósmica, Édipo fura os olhos.


O século V a.C. conheceu o apogeu da tragédia grega num período em que concorriam duas ordens d<^justiça: o mundo mítico agonizante e o emergente mundo racionalista dapólis, daí o gênero ser representante de uma visão de mundo marcada pelo choque de forças opostas. Trata-se de uma manifestação artística intimamente ligada, em suas origens, a concepções religiosas, ao mundo grego mítico e politeísta. Segundo Bornheim (1992, p. 81), a tragédia,
como gênero literário, foi cultivada em apenas dois períodos ou situações históricas: a Grécia do século V e a Europa dos tempos modernos. Em ambos os períodos encontramos, muito significativamente, a crise das respectivas crenças religiosas: crise do mundo grego homérico e crise da religiosidade medieval. Nos dois casos, incide-se em um processo de secularização ou laicização da vida humana. Assim, o florescimento da tragédia, considerado de um ponto de vista histórico, se move entre estas coordenadas, e se situa no choque, na crise, no momento de encontro de duas concepções de vida; se a religiosidade continua viva, subrepticiamente tende a ganhar terreno uma concepção puramente humana das coisas. O fato histórico é que a tragédia só se verifica na tensão entre estes dois extremos, 110 seu momento de incidência.
A tragédia conhece transformações ao longo da história, mas sua grande herança permanece: a concepção do trágico. O sentimento do trágico não é exclusividade da tragédia, mas está intimamente ligado a ela. O trágico nasce do confronto do herói com uma fatalidade, inevitável e insolúvel, geralmente provocada pelo conflito do homem com algo que lhe é superior (princípio moral, preceito religioso). Embora o herói corra o risco de ser destruído por essa fatalidade, ele o assume com o intuito de afirmar sua liberdade (PAVIS, 1999). Em linhas gerais, pode-se dizer que a ação do herói trágico clássico é impulsionada pelo desejo de cumprir um dever a qualquer custo (Antígona tem o dever de sepultar o irmão; o rei Édipo deve livrar a cidade da peste e encontrar o assassino de Laio). Já o trágico moderno é marcado pelo conflito entre o dever e o querer do herói; como resume Steiner (1965, p. 142), se a marca do teatro clássico é o destino trágico, em Shakespeare é a vontade trágica. Em suas peças, o trágico surge exatamente da tensão entre o dever e o querer do herói, abrindo caminho para novas concepções do trágico e novas formulações da tragédia. Abel (1968, p. 110) discorda da opinião corrente de que "mesmo sem a metafísica grega a forma da tragédia era possível e válida", afirmando, ao contrário, que a tragédia deixa de existir quando o homem moderno se assume senhor de seu destino. Na modernidade, a própria condição da existência humana passa a ser considerada trágica, como provam as inúmeras produções do teatro do absurdo. O individualismo burguês poupa o herói do confronto com o mundo, tornando o conflito interno ao próprio sujeito.

Comédia: na Poética encontramos a promessa de um tratado sobre a comédia, mas, infelizmente, esse documento não sobreviveu à história. Contudo, a comédia é geralmente definida em oposição à tragédia, pois retrata seres de caráter pouco elevado ou condição modesta, tem desenlace feliz e seu tom é jocoso, irônico, provocando o riso. A origem da comédia se confunde com a origem do próprio teatro, pois deriva das celebrações dionisíacas, com procissões, cantos e máscaras. A presença dessa forma dramática é marcante desde a Antiguidade clássica, coexistindo com o rígido controle religioso da Idade Média, sendo praticada nos tempos modernos e deixando suas marcas no teatro burguês (ARÊAS, 1990).
A ação da comédia caminha para o restabelecimento do equilíbrio. Ao contrário da tragédia e da epopeia, cujos assuntos são extraídos dos mitos ou da matéria histórica, o alvo da comédia é o cotidiano das pessoas comuns. Tendo o riso como um de seus componentes, a comédia lança mão de expedientes variados para provocá-lo como: exagero na composição de tipos; contraste entre personagens espertas e ingênuas; repetições de expressões e situações; uso de vocabulário e imagens que apelam ao baixo corporal, assim como de palavras de duplo sentido e conotação maliciosa; recorrência de quiproquós (equívoco oriundo de uma duplicidade possível na leitura da situação dramática) e confusões; descompasso entre o gesto e o discurso da personagem, gerando contraste (medo x coragem, por exemplo); inversão de papéis e posições sociais e posterior desmascaramento (travestismos e reconhecimentos) etc.
Geralmente o texto cômico conta com a cumplicidade do público (o aparte contribui para gerar essa cumplicidade) e tem uma feição crítica. Há vários tipos de comédia como a comédia de costumes (análise do comportamento social dos indivíduos), de ideias (discussão bem-humorada de ideias filosóficas)^ de situação (enredo intrincado e ação dinâmica), satírica (crítica contundente a práticas sociais, valores ou vícios), entre vários outros (PAVIS, 1999).
Tragicomédia: gênero que se desenvolve particularmente a partir do Renascimento, caracteriza-se por um enredo que "podia facilmente acabar em catástrofe, mas chega, por um incidente miraculoso e inesperado, a desfecho feliz" (DANZIGER; JOHNSON, 1974, p. 107). Descuidada de regras como a coerência de tom (separação entre sério e jocoso), a tragicomédia tende a explorar efeitos espetaculares como aventuras, reconhecimentos, quiproquós. Adapta-se bem ao gosto da era romântica, que propõe a união do grotesco ao sublime e compreende a existência humana como união de contrastes. Pode ser apontada como germe do drama. Esslin (1978) considera as obras de alguns dramaturgos modernos como Brecht, Ionesco, Beckett e até mesmo Pirandello pertencentes a esse gênero intermediário entre o cômico e o trágico.
Farsa: sua origem remonta aos mistérios medievais, nos intervalos dos quais era incluída a fim de proporcionar um momento de riso e relaxamento em meio a uma representação séria. Geralmente associada a um riso grotesco e pouco refinado, é considerada uma forma primitiva que não alcança o mesmo status da comédia. Trata-se de um gênero popular, de estrutura simples, sem elaborações no tocante à intriga, marcado pelo exagero do cômico por meio de procedimentos grosseiros e que recorre a palavras e situações obscenas ou escatológicas. Sua dinâmica depende mais da ação do que do diálogo e o leitor/ espectador é instado a sentir-se superior às personagens retratadas, por isso o riso é mais franco e um tanto mais cruel. "A farsa deve sua eterna popularidade a uma forte teatralidade e a uma atenção voltada para a arte da cena e para a elaboradíssima técnica corporal do ator" (PAVIS, 1999, p. 164). Gil Vicente (1465-1536) no Renascimento português e Ariano Suassuna no teatro brasileiro contemporâneo são bons exemplos da vitalidade do gênero.
Drama: no senso comum, a) designa qualquer texto destinado à representação, b) opõe-se à comédia e c) é associado ao drama psicológico. Como forma dramática e ainda num sentido genérico, "é o poema dramático, o texto escrito para diferentes papéis e de acordo com uma ação conflituosa" (PAVIS, 1999, p. 109). Suas formas básicas são o drama burguês, gênero sério, a meio caminho entre comédia e tragédia, que coloca em cena o homem fruto da revolução industrial; o drama romântico, marcado por ruptura com a regra das unidades de tempo e espaço, mistura de gêneros, recurso a ações espetaculares; o drama lírico, advindo das formas musicais do teatro (ópera), com ação limitada e dedicada ao propósito de revelar liricamente estados de alma; o drama litúrgico, surgido na Idade Média e diretamente ligado à representação de cenas bíblicas; e o drama histórico.
Melodrama: surge no século XVIII e caracteriza-se pela presença de música com a intenção de acentuar os momentos mais dramáticos da ação. Já no final do século adquire outras características ao colocar em cena a luta entre o bem e o mal, com personagens representantes de uma visão maniqueísta do mundo, e inundando o palco de efeitos cênicos que provocam grandes emoções no público. No final da terceira década do século XIX é substituído pelo drama romântico. Por exagerar abusivamente os traços heroicos, sentimentais e trágicos da tragédia, principalmente por recorrer demasiadamente aos golpes teatrais (assassinatos, suspense e medo, reviravoltas na intriga, salvamentos miraculosos etc.), pode ser considerado a forma paródica desse gênero sério. Os enredos estruturam-se sobre um mesmo eixo e repetem temas e convenções: amor impossível, os bons perseguidos injustamente pelos maus, triunfo da virtude e punição dos vilões, infelicidade profunda ou felicidade idealizada. Pelo exagero das situações, sempre mostradas em seus limites extremos, o melodrama beira o inverossímil; embora suija como representante da classe social burguesa, à época em ascensão, distancia-se dela ao colocar uma realidade fantasista no palco, ocultando conflitos sociais e escamoteando contradições ideológicas. Muito do que vemos nas telenovelas da atualidade é tributário dessa forma dramática, bem ao gosto popular ontem como hoje.
Auto: forma predominante no período medieval, quando a Igreja valia-se do teatro como meio de evangelização e doutrinação, chegou ao apogeu no século XVI. Peças de caráter popular, mescladas a cantos e danças, os autos recorrem à alegoria (processo por meio do qual entidades, conceitos e valores abstratos tornam-se concretos por meio de imagens e figuras, como por exemplo, o uso da figura da bruxa ou do demônio para simbolizar o mal) para tratar de temas como o bem e o mal, a punição pelos pecados e a necessidade de salvação, a representação de episódios bíblicos e da vida de santos? Destacam-se algumas de suas formas: auto de milagres, dramatização da vida de santos; auto de mistério, representação de episódios bíblicos; auto de moralidade, cujo propósito é exaltar o modo de vida cristão, recorrendo à dramatização da luta entre vícios e virtudes; auto sacramentai, pautado na representação de problemas morais ou teológicos como os sacramentos ou outros dogmas cristãos. Dentre os maiores representantes temos Gil Vicente em Portugal e Calderon de la Barca (1600-1681) na Espanha; no Brasil, José de Anchieta (1534-1597) utilizou o auto como recurso catequético e difusão do catolicismo entre indígenas e colonos e, na atualidade, temos obras como Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, que acena para a vitalidade dessa forma dramática.
Commedia dell'arte: Embora as raízes do gênero possam ser localizadas em tempos remotos, as companhias de commedia deli'arte surgidas na Itália circulam pela Europa de meados do século XVI ao início do século XIX, quando desaparecem sufocadas pelo Classicismo francês e pelo gosto burguês. A forma desaparece, mas suas técnicas e procedimentos influenciam práticas teatrais da atualidade como o clown e o teatro de rua (PAVIS, 1999).
Forma popular - mas devidamente valorizada e remunerada pela nobreza a commedia deli'arte era praticada por companhias profissionais, compostas por nove ou doze atores que desempenhavam sempre os mesmos papéis, tipos fixos caracterizados por máscaras e um gestual corporal predefinido: os jovens enamorados, as criadas e os servos (espertos ou estúpidos), os velhos. Marcada pelo improviso, o ponto de partida do espetáculo é apenas um roteiro (scenario ou canovaccio) e certas inserções cômicas programadas (lazzi) que indicam como as personagens devem agir e qual a sequência dos acontecimentos; como não há texto escrito, o espetáculo é criação coletiva dos atores, cujo trabalho exige constante aprimoramento técnico, particularmente no domínio gestual e acrobático (ARAGAO, 1983). Pavis (1999, p. 62) enumera as principais características do gênero:
terna modificável, elaborado coletivamente; abundância de quiproquós; fábula típica de namorados momentaneamente contrariados por velhos libidinosos; gosto pelos disfarces, pelos travestimentos [sic] de mulheres em homens, cenas de reconhecimento no fim da peça, nas quais os pobres ficam ricos, os desaparecidos reaparecem; manobras complicadas de um criado tratante, porém esperto. Esse gênero tem a arte de casar intrigas ao infinito, a partir de um pano de fundo limitado de figuras e situações [...].
Recepção do tecto dramático
Nem sempre a literatura dramática tem tido o espaço merecido e suficiente nos currículos dos cursos de Letras, sendo seu estudo, muitas vezes, relegado a disciplinas especiais ou cursos de extensão. Faltam materiais para facilitar o encontro entre o discurso teatral e o professor em formação e tornar mais rica e estimulante a experiência de leitura. A consequência é que o texto dramático acaba ocupando lugar periférico também em outros níveis de ensino e não faz parte dos hábitos de leitura de grande parte dos alunos e professores. Historicamente, isso pode ser explicado pela prevalência, no ensino, de textos narrativos e poéticos sobre os dramáticos. Além disso, a literatura dramática sempre esteve associada à ideia de cena, de representação, disseminando a impressão de que o texto dramático é escrito apenas para ser encenado, como se a leitura fosse um processo insuficiente ou incompleto.
As sociedades têm atribuído papel diferenciado ao teatro. Na Grécia antiga, ele tem função cívica, fundamental para a organização da polis; na Idade Média, a Igreja recorre ao teatro como auxiliar no processo de difusão da fé católica; a corte elisabetana o elege como um de seus principais divertimentos; não raras vezes o teatro é utilizado como arma panfletária e de crítica social, sofrendo censuras em muitos países e épocas. Isso só vem reforçar a importância do teatro no contexto de produção cultural humana.
A duplicidade do fenômeno teatral implica falar em duas formas de recepção:, a do texto dramático e a do espetáculo cênico. A recepção do espetáculo é sempre coletiva e influenciada por uma série de fatores como condições da sala ou do espaço de representação, competência de atores e diretores, aparato técnico disponível (iluminação, música, efeitos especiais). A reação de um espectador pode ser influenciada pela reação de outros; mesmo assim, a interação com o espetáculo é sempre individual. Assistir ao espetáculo é bastante diferente de ler o texto, pois a situação de enunciação da encenação cria novas sentidos para o texto, por mais fiel que a representação pretenda ser às indicações do dramaturgo.
O ato de leitura do texto dramático é semelhante ao de outros gêneros literários, com algumas nuanças. A ausência do narrador implica envolvimento mais direto do receptor com o texto, cabendo a ele criar mentalmente as personagens, imaginar o cenário, perceber intenções e sentimentos escusos. E comum por parte do leitor habituado a textos narrativos que os primeiros contatos com a literatura dramática sejam marcados por certo estranhamento com a estrutura do texto (atos, cenas, quadros; presença das indicações cênicas). Em contrapartida, a leitura tende a ser mais dinâmica e rápida. A leitura em voz alta é recomendável por evidenciar certas peculiaridades como agilidade do diálogo e entonação, elementos fundamentais para a construção do sentido de uma peça. O título, o gênero e a lista de personagens são elementos responsáveis por gerar expectativas no leitor - às vezes mesmo para frustrá-las, outras vezes localizando-o temporal e espacialmente, assim como fornecendo informações básicas sobre as personagens. Resgatar o contexto de produção da peça ajuda a compreender vários aspectos: o modo de agir das personagens, certamente condicionadas por seu meio e contexto histórico; o sistema de valores da época; o olhar do público contemporâneo à escritura do texto. A primeira leitura da peça geralmente corresponde à apreensão do enredo; para a compreensão da urdidura da intriga, faz-se necessário empreender nova leitura, dessa vez observando atentamente o encadeamento das ações e as motivações das personagens. O encadeamento das ações prevê a disseminação de sinais que tanto guiam a recepção quanto provocam indeterminações e ambiguidades capazes de sustentar o interesse pela leitura e pelo desenrolar da ação.
Após a compreensão da fábula ou enredo, o passo seguinte é identificar o(s) conflito(s) da peça. Para tanto, a pergunta fundamental é "o que quer a personagem?". Identificar esse querer é perceber a direção das forças atuantes na peça. O querer de uma personagem é determinado por alguma força, interna ou externa a ela, e dirige-se a um objeto. Entre o sujeito (personagem) e o objeto de seu desejo, forças podem se interpor, caracterizando os opositores; mas também há aqueles que auxiliam a busca da personagem, chamados adjuvantes. Finalmente, algo ou alguém se beneficia do fazer da personagem (ela mesma ou outros elementos/ personagens). Em Lisistrata, de Aristófanes, a guerra age como força sobre as mulheres que reclamam da ausência dos maridos e da perda de seus filhos nas batalhas. Seu desejo ou o objeto de sua ação é o fim da guerra e para o conseguirem, promovem uma greve de sexo. A resistência de algumas mulheres é o primeiro obstáculo a ser vencido pelo grupo, mas também os homens serão opositores por insistirem em continuar a guerra. Vencidos pelo desejo sexual, os guerreiros acabam se rendendo, permitindo às mulheres a consecução de seu objetivo. O grande beneficiário da ação é a nação ateniense que alcança finalmente a paz.
Na análise do texto, além de delimitar claramente a ação, perceber o(s) conflito(s) e detectar a ideologia que perpassa o diálogo entre as personagens, é de grande auxílio destacar signos que colaboram para a construção do sentido do texto. Em estudo sobre a representação teatral, Tadeusz Kowzan (1977) estabelece 13 sistemas de signos essenciais à construção do espetáculo, mas que também podem ser considerados na leitura do texto dramático, afinal, o autor dramático, embora prioritariamente "criador dos signos da palavra, [...] pode inspirar, mediante o próprio texto ou participando dos ensaios, signos pertencentes a todos os demais sistemas" (KOWZAN, 1977, p. 77-8; grifo nosso). Os sistemas de signo são: palavra, tom, expressão facial, gesto, marcação, maquilagem, penteado, indumentária, acessórios, cenário, iluminação, música e som, todos eles evidentes na realização cênica, mas também passíveis de análise textual.
Alguns signos tornam-se determinantes para a organização do sentido das peças. Em Longa jornada noite adentro há sempre uma garrafa de whisky em cena, lembrando constantemente o desejo das personagens de se manterem em estado de torpor, de anestesia para não encarar a realidade; em Gota d'água (1975), de Chico Buarque (1944- ) e Paulo Pontes (1940-1976) o trono de Creonte, dono do núcleo habitacional em que se passa a ação, representa o poder e a opressão do mais forte sobre o mais fraco; em A moratória o relógio de parede presente nos dois planos de ação aponta a passagem do tempo e a transformação exercida por ele sobre as personagens.

A leitura de uma peça exige que o leitor leve em consideração a vocação cênica da literatura dramática; observe a estrutura do texto, tomando as indicações cênicas como complementares ao diálogo; tenha discernimento do conflito e dos desdobramentos da ação; perceba as implicações ideológicas do discurso das personagens; conceba o signo teatral como elemento fundamental para a construção do sentido do texto. Trata-se de um processo que deve, em última instância, deixar evidente a teatralidade do texto, elemento que, afinal, é intrínseco à natureza da literatura dramática.

Referências
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